sábado, 7 de dezembro de 2013

Juguete Rabioso
                                                                           La Chicana

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013



A Vontade de Fazer

São coisas pequeninas. Não acabam com a pobreza, não nos tiram do subdesenvolvimento, não socializam os meios de produção e de câmbio, não expropriam as cavernas de Ali Babá. Mas, talvez, desencadeiem a alegria de fazer e a traduzam em atos. E, por fim, atuar sobre a realidade e muda-la, ainda que seja um pouquinho, é a única maneira de provar que a realidade é transformável.
 
                                                    Eduardo Galeano. Tradução livre.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013



Lua congelada
 
Com esta solidão
ingrata
tranquila
 
com esta solidão
de sangrados achaques
de distantes uivos
de monstruoso silêncio
de lembranças em alerta
de lua congelada
de noite para outros
de olhos bem abertos
 
com essa solidão
desnecessária
vazia
 
se pode algumas vezes
entender
o amor.
 
Mario Benedetti em: "O Amor, as mulheres e a vida"

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O Beijo, Gustav Klimt


Cumprimentava-me com sua pele
 enquanto seus olhos me diziam segredos.
Sua boca me olhava e seu corpo gritava em silêncio
pelo que estávamos por ser.
 
 Brando em: "Bocanadas y Besos"
 Tradução livre.

domingo, 1 de dezembro de 2013

 
Instruções para dar corda no relógio

Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as velas do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte, se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada.   

                      Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas, 1962

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

    
                       Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio
Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.                            Julio Cortázar em: Histórias de Cronópios e de Famas

quinta-feira, 14 de novembro de 2013



Amor Feinho

 
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
...
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.

Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.


                                                                               Amor feinho é bom
                                                                               porque não fica velho.

                                                                              Cuida do essencial; o que brilha

                                                                               nos olhos é o que é:
                                                                              eu sou homem você é mulher.
                                                                             Amor feinho não tem ilusão,
                                                                             o que ele tem é esperança:
                                                                             eu quero um amor feinho.
 
                                                                              Adélia Prado

terça-feira, 12 de novembro de 2013

                     Natureza humana                              

Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandemônio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir-me embora
E a tremenda vontade de ficar.
 
           Vinícius de Moraes

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Solidões

Eles têm razão
essa felicidade
pelo menos com maiúscula
                                           não existe
ah, mas se existisse com minúscula
seria semelhante à nossa breve
                                                pré-solidão

depois da alegria vem a solidão
depois da plenitude vem a solidão
depois do amor vem a solidão

já sei que é uma pobre deformação
mas o certo é que nesse durável minuto
a gente se sente
                        só no mundo

sem posses
sem pretextos
sem abraços
sem rancores
sem as coisas que unem ou separam
e nesta única maneira de estar só
a gente sequer tem piedade de si mesmo

os dados objetivos são como segue
há dez centímetros de silêncio
            entre tuas mãos e minhas mãos
uma fronteira de palavras não ditas
           entre teus lábios e meus lábios
e algo que brilha um pouco triste
           entre teus olhos e meus olhos

claro que a solidão não vem sozinha

se a gente olha por sobre o ombro seco
de nossas solidões
vê um longo e compacto impossível
um singelo respeito por terceiros ou quartos
esse percalço de ser boa gente

depois da alegria
depois da plenitude
depois do amor
                        vem a solidão

está certo
              mas
o que virá depois
da solidão

às vezes não me sinto
                                 tão só
se imagino
ou melhor se sei
que além da minha solidão
                                          e da tua
ainda estás aí
mesmo que se perguntando sozinha
o que virá depois
                           da solidão.

           Mario Benedetti em: "O Amor, as mulheres e a vida - Antologia de poemas de amor

domingo, 3 de novembro de 2013

Existe sempre o mar
sepultando pássaros
renovando soluços
rompendo gestos

Existe sempre uma partida
começando em ti
tomando forma
e sumindo contigo.

Existe sempre um amigo perdido
um encontro desfeito
e ameaços de pranto na retina.

Existe um canto de glória
iniciado nunca
mas guardado no meu peito
dissolvendo a memória.

E além da canção incontida
do teu amor ausente
além da irrevelada amargura
desta espera
existe sempre a terra
desfazendo
as vontades primeiras de Existir.

           Hilda Hilst em: Baladas