sexta-feira, 23 de março de 2012

"- Olhe que não é como julga. Não é verdade que, com a minha prática do ofício, podia trabalhar de olhos fechados?
- Até certo ponto. O senhor concordou em que, nessas condições, a obra não sairia perfeita.
- Por isso os abro. Também não é verdade que, com a minha idade, poderia fechar os olhos?
- Morrer?
Silvestre, que pegara na sovela e furava a sola para começar a coser, suspendeu o movimento:
- Morrer?! Que ideia? Não tenho pressa nenhuma.
- Então?
- Fechar os olhos só quer dizer não ver.
- Mas, não ver o quê?
O sapateiro fez um gesto amplo, como se quisesse abarcar tudo aquilo em que estava a pensar:
- Isto...A vida..As pessoas...
- Continua a charada. Confesso que não adivinho onde quer chegar.
- Nem podia adivinhar. Não sabe...
- Está a intrigar-me. Vamos ver se me oriento. O senhor disse que até mesmo quando podemos fechar os olhos os devemos conservar abertos, não foi? Também disse que os conservava abertos para ver a vida, as pessoas...
- Exatamente.
- Ora, bem. Todos nós temos os olhos abertos e vemas as pessoas, a vida...E, isso, quer se tenha seis ou sessenta anos...
- Depende da maneira de ver."

                                                   José Saramago em: Claraboia

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012


"Silvestre era tão vaidoso do seu corpo como Mariana desprendida do que a Natureza lhe dera. Nenhum deles se iludia a respeito do outro e bem sabiam que o fogo da juventude se apagara para nunca mais, mas amavam-se ternamente, hoje como há trinta anos, quando do casamento. Talvez agora o seu amor fosse maior, porque já não se alimentavam de perfeições reais ou imaginárias."

                                                    José Saramago em: Claraboia

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Paulo Mendes Campos



O AMOR ACABA

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
              Paulo Mendes Campos em: "Crônicas líricas e existências"

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012


Os Retirantes, Cândido Portinari

"Tem animal misturado com criança. Cachorro com sarna, criança com piolho, tudo no mesmo ambiente. Além disso, só as crianças têm lanche: um toddynho quente e bolacha. Os idosos, nem isso. Há um trauma visível naquelas pessoas. Famílias sem seus pertences, gente que muitas vezes perdeu seu emprego informal. E ninguém está tendo atendimento psicológico ou médico."

Cena relatada pela promotora Ivana Farina, do Conselho Nacional dos Direitos Humanos sobre o alojamento onde estão milhares de seres humanos retirados do Pinheirinho.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Tijolaço: De Chaplin, para os homens sem alma

Este blog não tem por hábito reproduzir artigos de outros blogs, todavia, abrirá uma exceção para transcrever o texto contundente e emocionado do jornalista Fernando Brito, retirado do blog http://www.tijolaco.com/, 




Os que defendem  que, em nome da lei, seis mil pessoas possam ser tangidas de suas casas, como se fossem animais, sem que, ao menos, antes de fazerem isso, se preocupem em ordenar, também, e com maior firmeza,  que fossem tratados com dignidade, com respeito, que suas crianças fossem abrigadas, que suas vidas – arrancadas dos lares de oito anos – não fossem dilaceradas, deveriam ouvir as palavras de Chaplin nas cenas finais do filme “O grande Ditador”.
Um pobre barbeiro judeu, por ser sósia do ditador Hinkel, ditador da Tomânia, vai parar em seu lugar no momento de um grande discurso de guerra.
Chaplin reproduz, no seu primeiro filme falado, um sentimento que, quem dera, estivesse presente no coração dos homens que têm poder sobre a vida de outros homens, mulheres e crianças.
Quem sabe os doutos desembargadores possam ouvir o que diz o genial vagabundo, a quem Carlos Drumonnd disse: velho Chaplin, as crianças do munto te saúdam.

                  Fernando Brito em "O Tijolaço"

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A barbárie



Reintegraçao de Posse - Pinheirinho/2012
 
"Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem...
Ademais não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos?...
E de que modo comentaríamos, coma só fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os prisioneiros válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele Antônio Beatinho que se nos entregara, confiante – e a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre esta fase obscura da nossa história?
Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5200, cuidadosamente contadas. (..)"

    Descrição da queda de Canudos em 1897 - Euclides da Cunhas em: "Os Sertões"

domingo, 22 de janeiro de 2012


Os Olhos Fechados, de O. Redon

MUNDO INTERIOR

Ouço que a natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
             De sol à ínfima luzerna.

Ouço que a natureza, - a natureza externa, -
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
            Entre as flores da bela Armida.

E, contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro de mim, vejo à luz de outro sol, de outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro
                                                             orgulho

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia - e dorme.

                  Machado de Assis em: "O Almada e Outros Poemas"

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Elis Regina


"Me tomam por quem? Um imbecil? Sou algo que se molda do jeitinho que se quer? Isso é o que todos queriam, na realidade. Mas não vão conseguir, porque quando descobrirem que estou verde já estarei amarela. Eu sou do contra. Sou a Elis Regina de Carvalho Costa que poucas pessoas vão morrer conhecendo”.

 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012


A Poesia

E foi nessa idade...Chegou a poesia
para buscar-me. Não sei de onde
saiu, do inverno ou do rio.
Não sei como nem quando,
não, não eram vozes, não
palavras, nem silêncio,
mas desde uma rua que me chamava,
desde os ramos da noite,
de súbito entre os outros,
entre fogos violentos
ou regressando só,
ali estava sem rosto
e me tocava.
Não sabia o que dizer, a minha boca
não sabia,
nomear,
meus olhos eram cegos,
algo me golpeava a alma,
febre ou asas perdidas,
fui me fazendo só,
decifrando
aquela queimadura,
e escrevi a primeira linha vaga,
vaga, sem corpo, pura
brincadeira,
pura sabedoria
de quem não sabe nada,
e vi de súbito
o céu
debulhado
e aberto,
planetas,
plantações palpitantes,
a sombra perfurada,
atravessada
por flechas, fogo e flores
a noite agasalhadora, o umiverso.

E eu, um mínimo ser,
ébrio do vazio enorme
constelado,
à semelhança, à imagem
do mistério,
senti-me parte pura
desse abismo,
girei com as estrelas,
meu coração se desatou no vento.

                      Pablo Neruda em: Memorial de Isla Negra

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Gabriel Garcia Márquez

 

"(...) acabou pensando nela como jamais imaginara que se pudesse pensar em alguém, presentindo-a onde não estava, desejando-a onde não podia estar, acordando de súbito com a sensação física de que ela o contemplava na escuridão enquanto ele dormia... De maneira que na tarde em que sentiu seus passos resolutos no tapete de folhas amarelas da pracinha custou a crer que não fosse outro embuste da sua fantasia".

                                 Gabriel Garcia Márquez em: O Amor nos Tempos do Cólera