segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Samba X Funk

    " É dentro da unidade da nossa diversidade que habita o coraçao do povo que somos."
                                             Antônio Nóbrega



Conversas boas sáo festas na alma. Existem pessoas com as quais as conversas nao se encerram na mesa do bar. Despedimos, cada um para sua casa, e o papo segue dentro da gente, perturbador.
Este é um dos assuntos que me acompanhou à casa, dormiu comigo e agora, desavergonhadamente, continua aqui..
Entre um chopp e outro, muito mais assunto, do prosaico à psicanálise. Tudo dá samba! Samba bom, harmonioso, vibrante, como tem que ser, como foi o nosso papo...mas se o funk é lembrado e surge atropelando meu samba, aí sou incisiva.
Este blog nao se propõe a falar mal de ninguém, ou de nada, ele quer somente exaltar a nossa arte. Mas quando o mal gosto, expressáo muito usada por Ariano Suassuna, ameaça a beleza da cultura popular, essencialmente brasileira, eu me ponho a bradar.
Os artistas populares povoam meu imaginário pessoal, andam comigo, vivem comigo, ora me desordenam, ora me rearrumam. Mas também sáo parte de uma memória maior, a memória coletiva nacional. Carregam consigo a memória da trajetória de um povo e, por isso, sua arte é o espelho de uma naçao.
E por falar em Ariano Suassuna, é bom lembrar que ele é também um militante da cultura popular. O sertanejo pula das páginas de seus livros e se apresenta muito além do sotaque de novela das oito. É o Brasil real, como ele diz, que se mostra: mitológico, rico, sofrido e criativo. Já ganhou a pecha de arcaico, mas nao liga. Segue palestrando por este país, levantando e defendendo a bandeira da cultura popular, seja na música, na língua (também ameaçada com exagero de estrangerismo), na literatura, sempre com unhas, dentes e verbo.
Ameaçado também está o samba, expressáo mais emblemática de um povo vibrante e alegre. Os tambores, que resistem há mais de duzentos anos, estáo sendo calados pela batida do funk; nossos tamborins estáo esfriando ante ao apelo sedutor da cultura de massa, pasteurizadora e vulgarizadora da arte. Sem entrar na seara sociológica da questáo, o fato é que é um fenönemo muito intenso nos suburbios e morros do Rio de Janeiro, o nascedouro do samba, que nos deu tantos talentos. O samba desceu o morro e passou a ser reduto da classe média; já nossos jovens das comunidades estáo cada vez mais seduzidos pela batida pobre do funk.
Triste constatação. Um povo só constitui como tal quando se identifica culturalmente. A uniformizaçao destrói a diversidade - nosso bem mais precioso. Por isso, o funk é, ao meu ver, nefasto.
A cultura de um povo está instrinsecamente ligada à sua autoestima. Quanto isto é perdido, o que sobra é uma sociedade amorfa e sem identidade. Perde-se a noçao de pertencimento. A alegria e a criatividade, táo características do nosso povo, dão lugar a uma imitaçao barata do que há pior na cultura estadunidense.
A arte é também instrumento para formar cidadaos críticos. A nossa cultura popular precisa de militäncia, como faz Ariano Suassuna, para nao sucumbir ante ao processo em curso de sua descaracterização.


Êta que esse chopp rendeu...

7 comentários:

Carla disse...

Parabéns pelo blog!! Isso é manifestatação popular, isso é cultura, isso é indentidade.

Equipe de Leitura disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Equipe de Leitura disse...

Cara Marcela,

esta carapuça me cai como uma luva! Sua descrição deste papo regado a chopp parece descolada de minha memória; curioso...parece que eu estava lá!
Sendo assim não posso me furtar à polêmica. Mas para que eu possa entrar nesta discussão, preciso, de cara, refutar sua recusa em discutir a questão do ponto de vista sociológico; pois, se por um lado, concordo com você quando diz que o funk é pobre do ponto de vista estético, por outro lado, tenho a convicção de que buscar entender as razões pelas quais este ritmo faz parte do cotidiano de milhares de pessoas das classes populares, pode jogar luz sobre o tema e relativizar posturas tão radicais quanto a sua. Esta análise, contudo, demandaria um tempo e espaço de que não dispomos aqui.
Gostaria, então, de me contrapor principalmente a uma das teses centrais de seu artigo: como professor de uma escola pública carioca situada no bairro de Benfica, e apreciador de samba, pude, por inúmeras vezes, encontrar dezenas de meus alunos nos ensaios de quadra, de rua, feijoadas e etc, das escolas Paraíso do Tuiuti e Mangueira (comunidades nas quais moram os alunos atendidos por minha escola). Assim, disponho de constatações reais para duvidar de sua suposição de que o funk ofereceria risco à sobrevivência do samba.
Como educador, e para abreviar o debate, acredito que há um problema, sim, quando constato o número limitado de ritmos (afinal, eles não ouvem apenas funk) pelos quais meus se interessam; mas, acredito - e luto diariamente para que isto aconteça! - que se oportunizarmos o ACESSO de nossos jovens a outros tipos de música, eles poderão aprender a gostar de outros estilos musicias, de maneira que ouvir funk seja também para eles uma OPÇÃO. Como é para tantos de nós, pertencentes às classes mais "favorecidas", que, independentemente do valor estético que atribuímos ao funk, reconhecemos tacitamente a força de sua batida, quando ele toca em nossas festas de famlía e, desavergonhada e desprentesiosamente, dançamos até o chão.

fabiano disse...

Nossa é um grande tema, e merece realmente uma boa pesquisa para sabermos o que está acontecendo com esses jovens dentro de sua comunidade, tentar fazer um parâmetro de como era a comunidade nas décadas de 50/60, 70/80, com os anos atuais, quais eram e quais são os seus principais atores sociais. Quais eram os ídolos de ontem e quais são os de hoje. Ontem existia o sambista malando (o Chico diz que esse malandro não existe mais). Passamos pelo período dos bicheiros, agora existe o tráfico...
O samba ganhou as grandes gravadoras, quem tem vez nelas? Filho de Roberto Ribeiro, filho de João Nogueira, qual foi o último grande artista que veio do morro e está nas paradas do sucesso? O funk está nas rádios comunitária, nós conhecemos o funk erotizado, mas existem compositores que fazem funk consciência, que fala do cotidiano no morro. Pegue o primeiro disco (LP) deve ter regravação em CD do cidade negra era samba de contestação e foram aconselhados a mudarem de o rumo, passaram a falar de amor, temos que saber o que tem mais representatividade na vida dessas pessoas. Temos que passar pelas Escolas de Samba, o que vem na minha mente agora foi a cena a ala da Velha guarda da Portela, uma das mais tradicionais Escola de Samba do Rio de Janeiro, que ficou sem desfilar por decisão da diretoria da escola que resolveu mandar fechar os portões para a escola não perder pontos em seu desfile. Se não temos respeito pelos os mestres, verdadeiros ídolos do passado como vamos exigir seguidores por parte de nossa juventude.
* Por coincidência antes de ligar o computador tinha colocado o CD acústico MTV de Paulinho da Viola na aparelhagem.

Marcela disse...

Mesmo com uma gripe fortíssima que náo está me deixando concatenar as ideias, nao resisti a dar minha colherada..
Por óbvio, meu olhar sobre o Rio é estrangeiro, mas a constataçao de que o funk está cooptando os jovens náo é só minha. Outro dia, vi uma conhecida carioca comentar que um amigo gringo lhe pedira para conhecer as favelas do Rio de Janeiro. Qual náo foi o seu espanto ao ver que os negros daqui estáo parecidos com os negros de seu país, os Estados Unidos. Desde a forma de se vestir até a música que ouvem, disse o americano. O mesmo boné de grife (falsificado ou náo), os tênnis, os óculos, a batida do funk..
Sérgio Cabral, também um autêntico carioca, disse que o samba hoje é música de velho. O samba nas comunidades é cada vez mais reduto de velhos saudosos porque a garotada está seduzida por um ritmo que vem de fora, bem mais moderno do que o que é genuinamente brasileiro.
E assim caminha a humanidade rumo à globalizaçao, que estende seus tentáculos também sobre a seara cultural. Nesta toada, náo é de se espantar que, em pouco tempo, os índios da Bolívia, os budistas do Nepal ou os negros de Angola estejam todos parecidos, todos iguaizinhos, todos colonizados culturalmente, e o mundo seja um grande e único mercado consumidor, como apregoa a cartilha da globalizaçao.
É bem verdade que esteticamente o funk é ruim. Nenhuma lembrança das raízes africanas, completamente extirpadas no processo de colonizaçao norte-americano. Os tambores foram suprimidos, a religiáo, a dança, a música, a comida, tudo que lembrasse a África foi severamente reprimido.
Aqui náo. Aqui houve uma certa leniência, o que garantiu a sobrevivência da matriz africana. E graças a esta mistura enriquecedora nosso povo e a música que ele faz é mais alegre, mais criativa e mais vibrante.
Mas para além da estética, a minha defesa é ideológica. Porque a história está recheada de genocídios culturais e, ao meu ver, a globalizaçao representa uma ameaça real às culturas populares.

fabiano disse...

Esqueci de dizer que tudo que postei acima são hipóteses.
Eu não defendo o funk em detrimento ao samba, apenas gostaria de alertar que o excelente bate papo que vocês tiveram em uma mesa de bar dá muito pano pra manga, devido as transformações que estas comunidades estão sofrendo. Se toda conversa de bar fosse deste nível...
Infelizmente não trabalhamos bem a nossa cultura local. A escola confunde cultura com festinhas comemorativas: dia do índio, dia do folclore, 7 de setembro, e assim por diante. As secretarias de culturas confundem promoção de cultura com promoção de evento, pensam que trazer um grande artista de fora é o suficiente para promover cultura.
O samba é uma cultura muito rica que herdamos e é a cultura vitoriosa, os primeiro sambistas apanhavam da polícia para realizar os seus desfiles na rua, a elite realizava bailes no salão. Hoje é o cartão postal da cultura brasileira.
A cantora Beth Carvalho deixou a Bosa Nova em prol do Samba.
Eu particularmente falando prefiro o samba de mesa, parido alto, ou como chamam samba de raiz.

Marcela disse...

Pois é, Fabiano, esses equívocos sao cotidianos, lamentavelmente.
Como os desfiles de carnaval também já perderam a espontaneadade.
A gente faz a conversa de bar aqui também, Fabiano.
Obrigada, amigos, por enriquecer este espaço.